O sertão que desafia o céu

A barragem de Mirorós está secando: embora tenha capacidade para 176 milhões de metros cúbicos de água, reúne hoje 31 milhões
Poucos mapas dão notícia dela. Mas os 95 quilômetros de estrada acidentada, onde se revezam asfalto, terra batida e buracos, logo tratam de apresentar a barragem de Mirorós, para quem tenta chegar até ela a partir do município de Irecê, na Bahia. Encravada no sertão do estado, a quase 600 quilômetros de Salvador, o reservatório - que oficialmente atende por 'Barragem Manoel Novaes' - toma de empréstimo o nome do distrito de irrigação que foi criado com sua construção. A situação ruim da via que leva a Mirorós passou muito tempo sendo a prioridade das reivindicações locais. Mas a água - ou a falta dela - urgiu.
O que tem tirado o sono das cerca de 150 famílias que sobrevivem das atividades nos lotes, espalhados por 2,1 mil hectares, é o regime de chuvas, que não tem colaborado para a reposição de água no reservatório nos últimos três anos. Embora a capacidade da represa seja de 176 milhões de metros cúbicos, ela reúne hoje parcos 31 milhões de metros cúbicos.
Cerca de 150 famílias vivem das atividades rurais nos lotes do perímetro irrigado de Mirorós |
Localizada às margens do rio Verde, afluente do rio São Francisco, a barragem de Mirorós se estende entre os municípios de Ibipeba e Gentio do Ouro. Construída pela Companhia do Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e Parnaíba (Codevasf), em 1984, tinha como objetivo atender à irrigação e promover a geração de energia. Mas logo passou a ser responsável também pelo abastecimento humano em Irecê, que vivia à base de água salobra, proveniente de poços.
O técnico agrícola Laurivan Nunes da Gama foi um dos que se entusiasmaram com o oásis no semiárido: em meados da década de 1990, garantiu dez hectares em Mirorós, onde passou a produzir goiaba e banana prata. Mas a tão sonhada fartura d'água se transformou em pesadelo. 'Em setembro de 1999, a barragem sofreu uma grande baixa, mas houve a retomada das chuvas em 2000 e 2001. O estado de tensão voltou depois da escassez de precipitações entre 2008 e 2009', conta Gama.
Laurivan da Gama, produtor de goiaba e banana: tensão por conta da escassez de água |
A situação piorou depois que a Agência Nacional de Águas (ANA) determinou, em outubro de 2009, que a barragem deveria priorizar o consumo humano, forçando a paralisação do perímetro irrigado quando o reservatório atingisse um volume de 20 milhões de metros cúbicos. Estima-se que só há água suficiente para seguir com a irrigação até junho - e o período de chuvas na região, que começou em outubro, termina em abril.
Segundo Gama, disputas políticas entre o governo federal e o estadual inibiram a construção de uma adutora que desafogaria a barragem, levando água do São Francisco direto para o abastecimento humano em Irecê. 'Nossa necessidade seria de uma obra com vazão de mil litros por segundo, e ficou decidida uma construção de 650 litros por segundo, que não atende nem a demanda atual', diz.
Texto: Mariana Caetano / Fotos: Ernesto de Souza
Ricardo Imai (de camiseta preta), especialista da Modclima, discute com agricultores de Mirorós os detalhes do voo de 'semeadura' de nuvens
Assustados com o ritmo que a água começou a sumir de Mirorós, os agricultores resolveram procurar ajuda. Toparam com o trabalho da Modclima, empresa paulista especializada em fazer chuvas artificiais, com o auxílio de um avião. Com a promessa de promover temporais, desembarcaram na região o técnico da empresa, Ricardo Imai, o piloto Alexandre Loureiro e o co-piloto Gustavo Nicoletti. Muito a contragosto do padre local, é verdade, um tanto preocupado com essa história de 'brincar de Deus'.
A Modclima utiliza um bimotor Piper Asteca para fazer chuvas artificiais |
O fato é que nasceu um fundo chuva para um projeto-piloto contra a estiagem. Dos R$ 378 mil, valor do contrato para 60 horas de voo, os produtores arcaram com 30%, e a Codevasf responsabilizou-se pelos outros 70%.
A técnica da Modclima foi criada e patenteada por Takeshi Imai, pai de Ricardo, e ganhou fama após sucessivos trabalhos para a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp). Diferentemente de outros métodos de precipitação, que usam substâncias químicas como iodeto de prata e cloreto de sódio, o método se baseia em uma reação física, que utiliza apenas água. De forma simplificada, trata-se de borrifar micropartículas de água nas nuvens, que se aglutinam e produzem gotas com peso suficiente para cair e formar a chuva.
Para fazer a 'semeadura', é preciso que haja no céu nuvens cumulos (aquelas que apresentam formato de couve-flor). 'O que acontece é que a nuvem pode estar passando sobre uma região-alvo e não precipitar. Nós otimizamos essa nuvem, direcionando para locais específicos a chuva que ela tem potencial para criar', afirma Imai.
O avião usado no procedimento - um bimotor Piper Asteca - leva um tanque de 300 litros de água (suficiente para 'semear' uma ou duas nuvens), e possui quatro bicos rotativos externos, por meio dos quais se controla o tamanho da gota que será despejada. Segundo o pesquisador, cerca de 70% da nuvens semeadas em Mirorós possibilitaram chuvas.
Até a primeira semana de março, choveu 17 milímetros na região, que não foram suficientes para elevar o nível da barragem. O contrato dos agricultores com a Modclima vence em abril. Entretanto, a atuação no sertão requer mais tempo. 'Começamos com foco nas nascentes, mas como o terreno da região está seco, a água não chegou a saturar o solo para correr pela superfície ou ativar nascentes para contribuir com a elevação da barragem. Passamos a focar nas chuvas sobre a barragem, mas é certo que precisaremos de mais horas de voo, principalmente porque a estiagem já estava bem avançada quando chegamos', explica.
O agricultor Edmar Dourado, que produz 50 toneladas de banana por hectare: se a barragem não se recuperar, será uma tristeza total
Anualmente, Mirorós produz 54 mil toneladas de frutas, o que movimenta R$ 40 milhões e gera 6 mil empregos. Um lote de cinco hectares na região está avaliado em R$ 100 mil. 'A maioria dos irrigantes já construiu sua casa, tem carro ou moto, possui um bom padrão de vida. E, de uma hora pra outra, podem ficar sem tudo isso', adverte Paulo Henrique Santos de Araújo, gerente executivo do Distrito de Irrigação do Perímetro Irrigado de Mirorós (Dipim), órgão que administra a área de cultivo.
A incerteza quanto à água acabou inibindo investimentos no perímetro. 'Temos 520 hectares prontos para serem irrigados, mas que não estão recebendo água. Há vários agricultores que estariam automatizando sistemas de irrigação e desistiram. Os tratos culturais já foram diminuídos. Estamos estudando a viabilidade da construção de poços, mas a angústia é geral', afirma Araújo.
Segundo Paulo Araújo, gerente do Dipim, a incerteza quanto à água já inibe investimentos. À direita, canal que alimenta os sistemas de irrigação em Mirorós |
O que será do futuro ainda é uma incógnita para Edmar Dourado. Nascido em Irecê, aventurou-se da contabilidade ao comércio, até se render à lida com a terra. De início, foi para Mirorós investir em banana, mas logo apostou em goiaba, mamão, manga e pinha, em 40 hectares. A produção é encaminhada para cidades do Nordeste, especialmente Salvador, Recife e Aracaju.
Hoje, Dourado colhe por ano 50 toneladas de banana por hectare - média alta, em comparação com os demais polos de produção da fruta no país. Em clima de expectativa, o produtor não tem nenhum plano engatilhado. 'Viemos com a intenção de morar e produzir em Mirorós. Tenho amor por esse lugar. Se a barragem não se recuperar, será uma tristeza total', lamenta o agricultor.
Muito além da água
A questão das chuvas no semiárido é complexa. As precipitações costumam ocorrer de forma localizada e, este ano, há ainda a influência do El Niño, fenômeno que interfere na subida das frentes frias do Sul, ocasionando menos chuvas no Nordeste. 'Além disso, a média de evapotranspiração é superior a 2 mil milímetros por ano, numa região onde chove 800 milímetros por ano, em média. É como se tivéssemos uma chuva maior de baixo para cima, do solo em direção ao céu', afirma João Suassuna, engenheiro agrônomo e pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco, em Pernambuco.
Goiaba, pinha e banana, frutos do sertão irrigação. Mas o semiárido pode oferecer mais possibilidades, da agricultura à pecuária |
Por esses motivos, segundo Suassuna, é preciso mudar o conceito da necessidade de se combater a seca. 'Enquanto fenômeno natural, existirá sempre. O que precisamos é traçar mecanismos para conviver com ela', diz. Neste sentido, ele defende que é fundamental entender melhor a caatinga, para obter os seus benefícios. 'É uma vegetação riquíssima. Podemos investir mais no extrativismo correto de plantas que produzem óleos, ceras, frutas e fibras', sugere.
A pecuária é também outra opção importante, mas ainda não explorada em toda a sua potencialidade no semiárido. 'Já existem experiências no Nordeste que comprovam a viabilidade da criação de raças de bovinos, como guzerá e sindi. Há ainda raças de cabras e ovelhas adaptadas à região. E, como complemento, pode-se plantar plantas resistentes à seca, como capim buffel e capim urocloa, para alimentar esses animais', completa.
Texto: Mariana Caetano / Fotos: Ernesto de Souza
Fonte: Globo Rural ![]()
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Comentários
ainda hei de ver a barragem de miroros transbordando!! ! Quote
Gostaria de salientar que a barragem pertece, mais de 60% ao Município de Gentio do Ouro, no qual não é, de forma alguma beneficiado com a mesma, não existem irrigantes do munícipio citado. No entanto, quase toda a região de Irecê é abastecida pela água do Município de Gentio do Ouro, enquanto nós aqui, tomamos água salobra. Somos excluídos de uma coisa que é nossa.
Existem cidades da região que não tem necessidade de receber essa água, por ter um imenso lençol freático, possibilitando um maior cunsumo de água da barragem.
Será que contratar aviões para interferir no ciclo das chuvas não teremos uma problemática maior futuramente?
Quem garante que o volume de chuvas nas margens da barragem vai ser suficiente para abastecer toda a população regional e os irrigantes?
Acredito que os donos de lotes na margem do rio verde possa contribuir com o reflorestamento , como também, evitando os desmantamentos e queimadas constantes nas margens. Quote
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